de guadalquivir, al-andalus
córdoba tem um definitivo clima de passado irrecuperável. ainda estou procurando a palavra para descrever esse algo perenemente perdido. capital da expansao mourisca na europa, sua história pesa demais. estamos no hostel, de onde estou postando (um grande centro da telefônica com telas de cristal líquido e conexao t3), a apenas uma quadra da grande mesquita. considerada pelos mulçumanos como o terceiro lugar mais sagrado (ficando atrás apenas da kaaba de meca e da mesquita al aksa, em jerusalém, de onde o profeta ascendeu ao céu) a mesquita cordobenha possui um manuscrito original do korao e um osso do braço do Mohamed. por estes motivos, tornou-se o centro de peregrinaçao da regiao de al-andalus (andaluzía atualmente). andando pelas ruas, entretanto, ruas que foram frequentadas por averroes (por ironia, o grande introdutor de aristóteles ao ocidente pós-antigo), onde carlos V e alfonso X passaram com suas coortes, a impressao mais marcante é a de oblívio. começa pela própria mesquita, fervilhando no sol andaluz com centenas de turistas de todo o mundo, estorquidos em 6,5€ para uma visita ao interior do lugar sagrado. no centro da mesquita, em 1523, foi construída (com o óbvio intuito de ofuscar a grandeza mourisca do lugar) uma catedral renascentista. o resultado é deprimente, pois a regularidade e beleza austera do lugar é invadida, no coraçao, por um enxame de imagética da cristandade tardia, cheia de si e de seus objetivos de salvaçao universal. ao lado do trabalhado minucioso e cheio de circunvolutas do teto e paredes da mesquita brotam anjos rechonchudos e cenas do martírio cristita. ademais, o centro histórico da cidade (aqui onde estamos é a judería, o bairro judeu) é um entremeado de ruas que se cruzam a cada trinta passos, de casaroes altos que quase se tocam em suas cumeeiras, numa repetiçao nauseante de lojas de souvenires. de outros espólios encontráveis fazem parte ruínas romanas, palacios renascentistas e o guadalquivir, tortuoso e um tanto ralo para sua fama, atravessando a cidade. desde os enxames turísticos (com direito a procissoes de japoneses de viseiras fumê) até o comércio vendilhao (como aqueles do templo de jerusalem), córdoba sofre com sua glória passada, agora conspurcada irremediavelmente pelo selo UNESCO de patrimônio histórico da humanidade.
de lisboa, fotos novas foram adicionadas ao álbum, assim como este primeiro dia cordobês. a viagem de portugal até aqui aconteceu sem muitos percalços, num ônibus insuportável guiado pela proverbial inteligência portuguesa. chegamos em sevilha às seis horas da manha, para descobrir que os trabalhadores acordavam apenas às oito (incluso sistema de transporte público). a viagem até córdoba foi interessante, cortando planícies desoladas por plantaçoes de girassóis secos até perder de vista. ficaremos mais dois dias aqui, amanha pretendo ir até granada, e depois voltaremos a sevilha, para uma estadia de dois dias. segundo consta no meu roteiro, la marcha, como é conhecida a noite sevilhana, é um fenômeno à parte neste sul de espanha, que deve ser acompanhado de perto e com satisfaçao.